sábado, 29 de agosto de 2015

Batata!

                   

    Há meses penso em adotar um bicho. Digo bicho, mas leiam "amigo", o sentido é o mesmo. O que eu não pensei é que um bicho poderia me adotar. Explico: há uns meses um gato malhado nos escolheu para chatear em tempo integral. Bagunçava o lixo, fazia cocô nas plantas, farreava geral no quintal. Arisco, não encostava pra conversa nenhuma. Dia desses pai comprou ração, encheu um potinho, pôs água também. Um banquete pra quem passava fome na rua e vivia de sobras dos lixos. Batata (nós os chamamos assim) não acreditou naquilo. Não mesmo! Comia... olhava pro pai... parava... comia... lambia a mão dele... comia de novo. Por fim, agradeceu, pessoalmente, a nós quatro que estávamos no quintal com lambidas e carinho. Pouco tempo depois apareceu todo machucado, parece que apanhou por causa de namorada. Pai com muito lero, arranhões e miados, conseguiu pôr remédio várias vezes até curar. Agora Batata está bonito, forte, tem uma namorada nova e até trouxe ela aqui pra comer ração também. Tive que pedir algumas vezes pra eles namorarem mais pra lá, porque ninguém merece... afinal tudo é conversável, não é? Nunca me negaram esse favor. Eles nos traz baratas, um presente, digamos, muito original e não arreda o pé quando percebe que alguém não está bem. Já deitou no meu colo num momento de aflição até que eu esquecesse que o dia fora ruim. 
     Cuidado em latim significa cura, então, o cuidado do Batata é o carinho. Esse encontro mágico que começou bem aqui no nosso quintal me fez refletir sobre nossa relação de cuidado com o outro, com o mundo. Leonardo Boff nos diz que cuidar das coisas implica ter intimidade com elas, senti-las dentro, acolhê-las, respeitá-las, dar-lhe sossego e repouso. É estar em sintonia com o mundo, auscultar-lhe o ritmo e afinar-se com ele. Cuidar é estabelecer comunhão. Quando acolhemos, somos acolhidos. Ao zelar pelo outro, extensão minha e sua no universo, somos zelados. Por isso me preocupo, me importo com você e anseio pelo dia em que percebam que somos todos um só. O OUTRO é uma das partes mais importante de nós. Agradeçamos a cada olhar, palavra, gesto consentidos e compartilhados. E principalmente, meus amigos, cuidemo-nos uns dos outros. Vamos todos nos adotar?

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